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O Reino de Deus está em vós - Leon Tolstói

"A leitura deste livro me fez um firme seguidor da não-violência." Gandhi.

 

Está disponível para nós, daqui do nosso confortável posto de observação do século 21 o livro imediatamente censurado pelo czar, " O Reino de Deus está em vós", de Leon Tolstói.

O mais heterodoxo dos discípulos de Cristo. O mais livre.

 

"A doutrina da não resistência ao mal por meio da violência tem sido ensinada pela minoria dos cristãos" - reclamava ele em meados de 1890.

Esta é sem dúvida a mais louca das doutrinas de Cristo, por que não lhe dá garantias de nenhuma espécie. E a que pede o maior sacrifício.

Sem promessas - "e verdadeiramente sereis livres", sem relativismos - "se a violência for física ou moral", apenas isso: "não resistais ao mal, mas pagai o mal com o bem".

Parece tão difícil sustentar a aplicabilidade desta doutrina quanto vivê-la.

Tente imaginar o pior mal que lhe pode acontecer - e Tolstói escreve às portas da primeira guerra mundial - e veja-se perdoando o ofensor depois disso. Sem trâmites adicionais - sem levá-lo às autoridades, sem um sermão e muito menos um revide.

Agora imagine-se não pactuando com nenhum mecanismo de violência, nem mesmo os legalmente constituídos. Imagine-se recusando-se ao serviço militar obrigatório, e colhendo todos os revezes que daí advém - a documentação que lhe faltará nos empregos reconhecidos, a possibilidade de ser condenado ao presídio militar.

Imagine-se não pactuando com o voto obrigatório - que legitima os usurpadores e corruptos - e colhendo todos os revezes que daí advém.

Imagine o quanto isto restringe o campo de sua atuação profissional - condenado a viver na marginalidade, e hoje em dia, sequer você viveria do campo, que está mecanizado.

Seria o suicídio.

Mas imagine que sua imensa, intangível liberdade desperta em todos que te cercam o desejo de seguir tua louca senda, e espalhe a boa nova como o fogo da palha. Imagine que dez por cento dos soldados se recusem a servir a "pátria" - leia-se o idiota fardado que berra ordens estúpidas - e teríamos um contingente humano impossível de ser punido.

Imagine que, assim como você, 30% dos proprietários de veículos se recusem a pagar o IPVA até que o corpo diretivo do DETRAN-SP seja composto de pessoas de reputação ilibada - e teríamos uma frota de veículos impossível de ser apreendida, circulando livremente.

Ou imagine que 25% das pessoas recuse-se a pagar as prestações da casa própria até que  toda família tenha direito a um lar, e teríamos um volume de processos impossível de tocar, sufocando a justiça, que se veria obrigada a perdoar a todos.

Mas haveriam os que se aproveitam para tirar vantagem, os fura-greve, os puxa-sacos do poder - pode-se argumentar, e os bons pagariam pelos covardes.

Nas biografias de Gandhi podemos vê-lo lidando com este problema, que não é hipotético, mas real. Sua solução foi a greve de fome - até que todas as províncias pararam de revidar ao governo com violência, e ele obteve um movimento 100,000% pacífico.  Também quase morreu por causa disso. E nas relações com o governo inglês: "Nenhum governo resiste a uma população indisposta a colaborar."

As boas novas são para todos. A nossa covardia porém nos faz servos do consumo e servos do governo. E assim, servindo a vários senhores, perdemos nossa liberdade que é servir a Cristo.

É um livro para uma reflexão profunda. Difícil de refutar, por que o próprio Cristo exemplificou-a. Que tem consequências imprevisíveis e loucas para quem decide nele acreditar. Você pode ser incompreendido por sua família, abandonado - essa foi a morte de Tolstoi. Você pode se tornar um Gandhi ou um proscrito. Livre em ambas as possibilidades. Viverá em uma incrível corda bamba existencial, e cada dia seu terá a emoção de mil dias das pessoas comuns. Você não terá nada a perder, pois já perdeu tudo. Menos sua liberdade.



Escrito por wassergomes às 16h08
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A linha 106-A

Breve será disponibilizado (não sei por que mídia) o meu infame livro, "A Linha 106-A".

Desde já, concorre ao título de livro menos lido da história.

Se livros mudam pessoas, pode residir aí um mérito da obra.



Escrito por wassergomes às 09h59
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A glória da segunda casa

A glória da segunda casa (Ageu 2.3).

Após a conclusão da obra do templo pós-exílico, algumas pessoas ficaram desanimadas por considerarem o novo templo como nada em relação ao anterior, construído por Salomão. Deus então encoraja o povo dizendo que a glória da segunda casa seria maior do que a primeira.

Quatro séculos depois, o filho de Deus pisava os átrios da segunda casa, mostrando assim a glória de Deus de uma forma não imaginada.

 

Pois bem, quero parodiar o texto bíblico com minha própria versão de

 

A glória da segunda casa

 

Havia em uma cidade grande um grande templo, com rica decoração, bancos confortáveis, acústica perfeita. Ar condicionado, gente educada e uma profusão de abraços, sorrisos, alegria.

Predominava o vermelho do estofamento dos bancos, e no teto haviam alusões ao céu, às nuvens, à eternidade.

O coro de cem vozes enchia o ambiente com hinos centenários, da melhor lavra da reforma. A orquestra executava A Reforma, de Martin Luther com perfeição, e comovia o mais desavisado transeunte; muito embora as portas permanecessem fechadas para não desconcentrar os músicos, era possível ouvir mesmo de fora.

O líder espiritual era bastante idoso, e embora sorrisse e cumprimentasse a todos na entrada e na saída, tinha fama de severo. Fazia questão do zelo na liturgia, para que harmonizasse com sua preleção, que era elaborada a partir das melhores traduções do texto sagrado. Falava cadenciadamente, mas ninguém piscava o olho pois a profundidade que ele atingia na exegese era incomparável.

A comunidade esforçava-se por manter-se pura aos olhos do líder e de Deus. Não se ouviam conversações improdutivas, não se falava de cerveja, truco ou prazeres.

E foi quando o ancião veio a falecer.

Após o belo cerimonial de despedida, feito neste mesmo templo, assumiu em seu lugar um líder jovem, inexperiente e idealista.

Os velhos logo perceberam riscos em expor igreja tão grande a líder tão iniciante, e estavam certos em seus receios.

Ele usava um brinco, embora pequeno, e vestia-se muito simplesmente. Simplesmente demais.

No primeiro domingo ele não usou gravata. Muitos franziram a testa, era um claro desrespeito à tradição quase centenária de indumentária completa. Mas ele fez a preleção sobre a inclusividade do reino de Deus, o que levou muitos ouvintes a entender a falta do adereço como uma figura didática, e ele foi perdoado.

No segundo domingo ele também não usou gravata, e pediu que as portas fossem abertas. Qualquer um que quisesse entrar poderia fazê-lo a partir de então, e algumas pessoas recearam por sua própria segurança, pois eram líderes comunitários com rasoável condição financeira.

Mas não parou aí. No domingo seguinte antes da preleção ele falou sobre como o mestre abordava às pessoas mais excluídas da comunidade, ao invés de evitá-las. E sugeriu que todos fossem para a rua naquele exato instante e convidassem a primeira pessoa que vissem para entrar.

Foi quando a coisa ficou séria, pois muita gente havia ido ao templo para ouvir uma preleção, e agora, além de não ouvi-la, iria abordar estranhos na rua. A primeira pessoa que passou, ou melhor, que foi vista era um mendigo que havia dormido ali na noite passada e obviamente precisava de banho, roupa usável e provavelmente remédio contra piolhos.

Um terço das pessoas não voltou. Quando a cerimônia religiosa recomeçou, o líder descobriu que metade dos músicos também havia ido embora, pois além da porta aberta atrapalhar a acústica, boa parte da platéia não teria cultura suficiente para entender um prelúdio, a parte principal e o póslúdio.

O cheiro agradável de colônias era agora apenas uma influência entre tantas outras no ambiente.

Os músicos remanescentes tentaram argumentar em prol da salvação da acústica mas o líder era irredutível. Pediu que tocassem algo mais simples, e então não haveriam erros. E a platéia nova sequer notaria a diferença. Outro pequeno grupo de músicos debandou.

A preleção foi muito curta, mas o líder falou sobre como Jesus havia sido abandonado por todos e morrera em vexação profunda, e por isso podia compreender aos que estavam ali.

Foi a primeira vez em muitos anos que um choro incontido irrompeu na platéia. Era óbvio que vinha de gente “sem classe”, sem compostura, e isso foi demais para outro tanto de gente que queria entender e prestar atenção na preleção, e decidiu partir sem dizer adeus.

Com o passar dos meses a igreja passou a cheirar remédio para piolhos, inseticida. O perfume anterior era uma lembrança histórica, fazia parte do passado.

O novo líder enfatizava a vida interior de cada um em detrimento das exterioridades. Ressaltava que leituras viciadas do texto sagrado justificavam carnificinas em nome da religião, exclusão social, justificavam uma vida vazia de aparências que levava ao entristecimento.

Outro tanto de pessoas que zelava por não ser visto jogando baralho, bebendo cerveja, frequentando a noite debandou nessa ocasião.

Em compensação, uma mistura muito improvável e rica de pessoas de muitas procedências sociais começou a se formar e a gostar uns dos outros. Pobres entendiam suas condições transitórias e ricos procuravam amenizar o sofrimento deles.

Quando o líder falou sobre dar a outra face e doar tudo aos pobres, debandou uma última casta de colaboradores. Teriam causado um enorme desfalque financeiro, se o templo ainda precisasse de cortinas, trancas eletrônicas de portas, telões, projetores, suportes para instrumentos caros.

Tudo havia se resumido ao indispensável, e as ofertas financeiras eram integralmente repassadas aos mais necessitados, não importasse se fossem às reuniões ou não.

Foi assim, com limpeza quinzenal, preleção feita sem microfone (mais próxima do público), cheiro de feijoada nos fundos para depois da cerimônia, choros incômodos, pessoas interrompendo a preleção para adorar, líder com cheiro de ônibus que a glória da segunda casa se tornara maior que a da primeira.



Escrito por wassergomes às 14h25
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Sobre Deus e desilusão

- Talvez Deus tenha morrido – dizia um dia a quem escreve estas linhas Gerard de Nerval, confundindo o progresso com Deus e tomando a interrupção do movimento pela morte do Ser.

Victor Hugo, lembrando-se de conversa em "Os Miseráveis"



Escrito por wassergomes às 09h29
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Acerca do que me importa

Quanto às obras? Louvo os espíritas.

Quanto ao bem e o mal? São inseparáveis, mas a ética pode evidenciar as diferenças.

Quanto à fé? É necessário seguir na estrada, mesmo sob nevoeiro.

Quanto à teologia? Devemos mantê-la sob suspeita constante. É cúmplice do status quo.

Quanto às respostas? Estão espalhadas no caminho. Procure o bem, e as perguntas se perderão ao vento.

Quanto à moral? Que não seja hipócrita.

Quanto ao futuro? Constitui-se da natureza do presente. Santifique o presente, e o futuro será uma catedral.

Quanto à alma? Sobreviverá à morte.

Quanto à morte? É o divórcio da alma e do corpo, mas ambos subsistem sob outras formas.



Escrito por wassergomes às 09h05
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Outro Deus

Um deus para quem a maior afronta possível é uma mera postura intelectual (“não creio em ti”), o que sabemos não ter a mínima influência em seu caráter; um deus que permita agressões às outras criaturas de suas mãos, maiores que aquelas que muitos homens maus admitiriam; e mais, capaz ele próprio de agredir de forma ainda mais brutal do que todos os castigos terrestres imagináveis, lançando num mesmo bolsão maldito ateus e genocidas; um deus que selecione de maneira absolutamente arbitrária (e não se preste a divulgar o critério de seleção) aqueles a quem amará e aqueles a quem punirá milênios adentro, retirando das mãos de tais criaturas o arbítrio sobre seus próprios destinos, e mesmo assim declare cinicamente “amei o mundo de tal maneira”; este é um deus que só deveria caber nas ficções literárias mais cruéis. Estou certo de que houveram tiranos mais bondosos, menos caprichosos, mais justos que ele. E, no entanto, é exatamente este deus que milhões vão adorar todos os domingos.

Não, meus queridos, minha alma clama por outras interpretações do texto sagrado, que não a interpretação que prevaleceu por séculos.

Os homens mais esclarecidos que os séculos produziram ousaram romper contra o pensamento dominante; Tolstoi, Nietzsche, Gandhi, só para ficarmos com os mais conhecidos. Humildemente me somo a eles.

Ame a todos indiscriminadamente. Converse com o mesmo interesse com bruxos e padres, com crianças e com governadores. Enxergue em cada um e em todos os homens, irmãos seus que viveram outras vidas que você não viveu, e portanto não tem como julgar.

Em seu coração nascerá uma concepção de Deus tão sublime que será impossível – e desnecessário - explicar, teologizar, sistematizar.



Escrito por wassergomes às 09h05
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Os Miseráveis, de Victor Hugo

Começo a leitura de Os Miseráveis, de Victor Hugo, e bastaram algumas dezenas de páginas para me fisgar. Mais horas de sono serão substituídas por uma cambaleante porém revigorante leitura deste clássico.

O encontro do piedoso bispo de Digne com um senador moribundo, participante da revolução francesa é um retrato da atitude reacionária da igreja ante a provisória (a)moralidade que acompanha todas as revoluções, mesmo no caso desta, a mais nobre de todas elas. O fato de acontecer logo nas páginas de abertura do livro sugere que virão muitas dialéticas mais no campo da espiritualidade, da ética e política, mas por hora é a ode ao Misericordioso que transcreverei abaixo:

 

“Ó Vós que sois!

O Eclesiástico vos chama de Onipotência; os Macabeus, de Criador; a Epístola aos Efésios, de Liberdade; Baruc, de Imensidade; os Salmos, de Sabedoria e Verdade; João, de Luz; os Reis, vos chamam de Senhor; o Êxodo, de Providência; o Levítico, de Santidade; Esdras, de Justiça; a criação vos chama de Deus; o homem, de Pai; mas Salomão diz que sois Misericórdia, e é este o mais belo de todos os vossos nomes.”

 

Bispo de Digne, os Miseráveis - Victor Hugo



Escrito por wassergomes às 09h14
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SOBRE AS MESAS DE BAR

SOBRE AS MESAS DE BAR

 

É um fato reconhecido por grande parte das autoridades no assunto (etilismo?) que o álcool tem o poder de desinibir as pessoas.

Alcoolizadas, as pessoas cometem grandes bobagens e dizem coisas das quais se arrependerão, mas esteja certo: violado o selo da falsidade, tirado o manto das máscaras sociais que vestimos, sob a bênção do álcool, ela está lá; a verdade em sua forma mais pura.

A essência do que somos navega a plena vela no mar da esfera pública quando molhamos o bico, preferenciamente em doses hipopotâmicas.

No seu trabalho, na sua escola, não há o vento necessário para levantar a cortina que esconde o que somos das outras pessoas. Na igreja? Atrás desta cortina erigimos ainda um muro, o da falsa modéstia, o da espiritualidade latente, o das convenções religiosas.

 

Escondemos nosso verdadeiro eu como quem esconde um tesouro

 

The truth is out there.

Deve ser por isso que as melhores conversas que tive desenrolaram-se fatalmente numa mesa de bar.

E foi uma dessas conversas que modificou profundamente meu modo de ser cristão.

Conversava com um bêbado profundamente inteligente. Cada uma de suas frases vertia uma construção muito pessoal, medida para comunicar com exatidão, como convém às pessoas da área de exatas. Curioso que toda essa exatidão não conseguisse ocultar a semiparanóia que habitava a alma daquele sujeito. Porque ele era mergulhado em crises existenciais, e nessas ocasiões destiladas ele as vertia na proporção exata da velocidade de ingestão dos goles.

 

(Quase) todo evangélico é um senhor da verdade

 

Sendo eu cristão, de forte formação teogógica (parte teológica parte demagógica) pus-me solicitamente a ajudá-lo com as respostas às suas crises, já que eu andava com verdades a tiracolo.

Uma dúvida dele aqui, uma resposta minha na caçapa. Outra dúvida, outra resposta.

Na terceira seqüência ele tascou, assim, sem gelo, à queima-roupa: “Poxa, que chatice, eu não sabia que a gente tava bebendo com um juiz”.

Aquela frase teve a força de um murro de briga de bar, daquelas que a gente cai pra trás com cadeira e tudo.

Foi quando eu saquei o quanto era pedante sair por aí resolvendo o mundo, e acreditar que se tem as respostas a todas as crises existenciais das pessoas. Mais, que a resposta é uma só a todas as crises.

Acho muito chato e improvável acreditar que existe uma única forma de existir que seja legítima e gratificante. Hoje admito com alegria que há muitas experiências e crenças diferentes das minhas que podem trazer alegria, senso de propósito para a vida e serem igualmente verdadeiras.

Civilizações inteiras existiram por milênios e administraram com rasoável sucesso seu tecido social acreditando em postulados diferentes dos meus. Se há mazelas lá, também as há aqui.

Se o cristianismo presume fé, não devemos desejar convencer a quem quer que seja de que nosso caminho é mais benéfico, mais autêntico.

Se o álcool permitir, devo me lembrar de agradecer aquele bêbado inconveniente e lúcido.

Certamente em uma mesa de bar.



Escrito por wassergomes às 10h32
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o que tenho contra a religião

Este fim de semana assisti a um comediante norte-americano que satirizava a religião.

O que ele disse poderia ser engraçado, mas para mim a verdade às vezes não é tão engraçada. Tento aqui reproduzir o que ele disse:

“As pessoas me perguntam por que eu pego no pé da religião. A religião é boa para as pessoas – dizem. Bom, tirando o fato das guerras santas, jihads, cruzadas, extermínios de nações, de crianças, estupros em massa, casamentos forçados entre adolescentes, esterilização e circuncisão de mulheres, ostracização de mulheres e homossexuais, opressão das minorias, faxinas étnicas, invasões, terrorismo, fundamentalismo, tenho pouco o que reclamar da religião.”



Escrito por wassergomes às 14h10
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A maior sublimidade

 

 

Já faz uns quinze anos que adoto o “método da maior sublimidade” para minha fé. Você não encontrará este método nos manuais de teologia mais aceitos. Aliás, não o encontrará em nenhum manual de teologia. Também não adianta digitar no Google; ele não está lá.

É apenas uma expressão que criei para explicar o que penso de Deus. Ou melhor, sobre os sistemas de pensamentos humanos que tentam explicar a Deus.

Então quando em meados de 1990 um senhor começou a aparecer na TV dizendo: “Deus não pode fazer este milagre por voce, porque ele já fez tudo na cruz... é voce que tem que tomar posse do que ele já fez...” então não tive a mínima dificuldade para ignorar sua mensagem, pois o meu Deus podia tudo. O meu conceito de Deus tinha “maior sublimidade” que o conceito daquele senhor. Entendeu o método?

Pois bem; foi assim que abracei o calvinismo em detrimento do livre arbítrio. Por que para mim, não compensava adorar um Deus que não pode todas as coisas, que não fosse soberano sobre tudo e sobre todos. Para mim, o livre arbítrio visto do ponto de vista da soberania de Deus era algo impensável. Se míseras criaturas tem o livre arbítrio sobre coisas, sobre sua vida, sobre seus negócios, então Deus não tem arbítrio nenhum naquela área, naquela vida, naqueles negócios. Nas palavras de Lutero, Deus não é Deus.

Até bem pouco tempo atrás, o Calvinismo era o meu sistema de “maior sublimidade”. Aquele que dava maior poder a Deus, maior honra, portanto.

Acontece que o meu conceito de honra mudou.

A vida não se resume a quem é mais forte, quem é o soberano.

O modo como lidamos com a violência diz muito sobre nossa honra.

Se um rei manda matar aqueles que o desagradam, que o irritam, que o provocam, então este rei não tem maturidade para lidar com a oposição, para dividir o poder. É um tirano mimado.

Então, se respondemos o mal com o mal, não somos muito mais honrados do que aquele que nos agrediu. Porém, se damos a outra face, como Jesus ensinou, então somos dignos do louvor do Pai.

Logo não faz mais sentido para mim acreditar em um Deus que está esperando a curva da morte para pegar os maus no vacilo. Pra pegar quem não acreditou nele. Isso não tem muito mais honra do que aquele moleque mimado que é maior que a gente e ta nos esperando pra aplicar uns sopapos no recreio, porque ele tropeçou e a gente riu.

Será que Jesus disse “Perdoa-lhes pois não sabem o que fazem” e Deus então teria dito: “Eu pego esses soldados romanos e lhes aplico o castigo eterno depois.” Não. Acho que Deus ouviu aquela oração, e tremendo, perdoou os que mataram seu Filho. É por isso que Deus tem moral para pedir que nós perdoemos nossos adversários.

Por isso o que quero no fundo dizer é que não acredito que o calvinismo traz a maior sublimidade possível para Deus. Por que o Deus de Calvino age em defesa de sua própria honra na base do olho por olho, dente por dente. Aliás, ele vai além. Ele requer a alma daqueles que o ignoram, e isso é muito pior do que o olho por olho. Ele não tem moral para pedir que perdoemos nossos semelhantes, pois Ele não perdoa gratuitamente ninguém. Alguém tem que sofrer para reparar a honra dEle, nem que seja seu Filho inocente. Alguém tem que ser esmagado. Nem que seja uma parte de Si próprio.

O Deus de Calvino tem soberania, mas não tem honra. Nem sublimidade. Sua bondade se resume aos que Ele previamente escolheu. É como o rei que só protege quem Ele gosta, e quem lhe jura lealdade.

Mas "a maior sublimidade" é só o meu sistema.

P.S.1: O que tem “mais sublimidade” que o Calvinismo? Isso é o que conversaremos no próximo texto.

P.S.2: Ao leitor que adota o Calvinismo, presto meu tributo voluntário, pois é um sistema centenário, com boa dose de coerência interna e histórica.

P.S.3: Há os que acharão que estou sendo herege. Estou questionando Calvino, não a bíblia.

 

 



Escrito por wassergomes às 02h23
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Dilema Inquietante

Com mil caracóis!

Se alguém não acredita no diabo, tem que acreditar no espiritismo!

Isso porque se o cramulhão não existe, não poderia então estar lá nas primeiras experiências dos pais do espiritismo, conduzidas com todo o cientificismo disponível da época.

A menos que tudo fosse uma tremenda fraude. Orquestrada por cientistas famosos, filósofos reconhecidos, e tudo quase simultaneamente.



Escrito por wassergomes às 00h23
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COMO ENTENDO O PÓS PROTESTANTISMO

COMO ENTENDO O PÓS PROTESTANTISMO

Em um esforço pessoal por entender o fenômeno “pós-protestantismo”, e escrevendo livremente, sem nenhuma pretensão de assertividade, passo a transcrever algumas impressões pessoais:

Em primeiro lugar, o pós-protestantismo busca resgatar um aspecto pouco percebido na natureza de Jesus, que é a sua não-conformidade com os padrões sociais de pensamento. Aquele Jesus que se livrava das charadas teológicas, respondendo perguntas com outras perguntas, que citava povos desafetos alçando-os à condição de heróis de suas parábolas, enfim, este Jesus começa a despertar nos homens de nossa época um desejo de imitá-lo, não só em suas atitudes altruístas, na poesia de sua fala, mas também em seu brilhantismo e habilidade social. Outros substantivos passam a ter sentido nessa “nova” ótica: rebelde, anarquista, livre, sem contudo sentir-se que sejam ofensivos.

Em segundo lugar, noto o desejo de resgatar a humanidade de Jesus. Embora reconheça-se o Cristo da Teologia Sistemática, o Cordeiro Ungido Rei, aquele que está à direita do Pai e tem uma espada em sua boca, entretanto começa-se a buscar nas pisadas do carpinteiro de Nazaré o ideal, a beleza, o referencial. Ao destacar o lado terreno de Jesus, procura-se um novo tipo de espiritualidade, não a espiritualidade monástica que se separa do mundo, mas a espiritualidade social, que se suja do pó das caminhadas, que transgride ao curar no sábado, ao tocar leprosos, ao conversar com adúlteros.

Terceiro, acolhe-se a dúvida, redimindo-a do seu tradicional lugar de ostracismo, de vacilância. Dois mil anos de teologias as mais diversas, antagônicas, controvérsias sem fim sugerem a estes novos cristãos que talvez a teologia não seja a resposta às dúvidas humanas, que é possível cada um construir uma teologia pessoal, todas válidas em certo sentido. Um mundo fragmentado e sujeito cada vez mais rápido a mutações que não temos a menor capacidade de prever ou controlar sugere uma probabilidade cada vez menor de cristalizar uma determinada interpretação literal da bíblia quanto à escatologia e sugere formas novas de se ver o fim do mundo, o julgamento final, as pragas do apocalipse.

Quarto, o ideal cristão deixa de se situar no campo moral e eclesiástico e passa a residir na esfera ideológica e social. Entendido como fruto (pelo menos em parte) de uma lei mosaica caduca e uma ética capitalista, a moral deixa de ser a ênfase das pregações, vindo ocupar o lugar dela uma ética de ideologia, mais genérica e mais compreensível a todas as religiões: a bondade em sua forma mais simples. E a vivência desta bondade é irrestrita, não se situando dentro das paredes dos templos, mas nas ruas, na vida secular, no minuto.

O novo protestantismo procura caminhos de convergência com todos os grandes sistemas religiosos – embora não tenha alçado um êxito maior que os antecessores, é candidato forte ao cargo, na medida em que a verdade é entendida apenas com referências. Em outras palavras, em um sistema sem verdades absolutas, o diálogo é mais viável.

É evidente que a falta de chão incomoda – não crer de modo absoluto é um incômodo, que nos impele a um desespero calculado, a uma busca individual que se sabe não ter fim. Mas, em vista do que se julga saber, é mais honesto que as asseverações dos sistemas anteriores.

Resta saber o que virá depois.

Mas, como disse, são só impressões pessoais.



Escrito por wassergomes às 16h16
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Mais lírico e mais cru

Leia também


http://otemise.blogspot.com/


Mais lírico, e mais cru. Sem rodeios.



Escrito por wassergomes às 10h25
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morte e ressurreição da igreja

Enquanto dava meus últimos suspiros dentro de uma igreja - entendida assim mesmo, como um lugar físico que ajunta gente pra experimentar o sagrado – tive uma conversa com um amigo que acabava de sair da dele.

“O que fica no lugar da igreja?”, perguntei.

“A liberdade”, ele respondeu.

Foi curioso ele me responder isso, pois pensei que ficaria um vazio interior, impreenchível. Que me arrependeria pelo resto da vida, e me sentiria um traidor do evangelho.

Conhecendo aquele meu amigo como o conheço, sei que ele atinou para a profundidade de sua resposta.

A primeira coisa da qual me senti livre foi do cronograma. O número de atividades a que se é solicitado que se participe só encontra limite nas leis da física – é impossível estar em dois lugares ao mesmo tempo. Mas fora isso, há atividades para todos os gostos, todos os horários. Tudo é dito de forma muito equilibrada, mas as entrelinhas acabam falando mais alto. É presumido e valorizado que se substitua a família pelas atividades da igreja. O futebol, então... esse deve ser banido para sempre. Se essa substituição não é feita, você não é levado a sério como um participante com algo relevante a oferecer. Você cai na casta de freqüentador simples módulo 1.

A segunda coisa de que me senti livre foi do cinismo. Cinismo que vem da necessidade de fazer pose de pessoa transformada, santificada. É certo que se deve buscar a santificação, mas esta é entendida na igreja evangélica como uma desencarnação, a mortificação dos sentidos, a negação dos desejos básicos do ser humano mesmo, levado às raias dos fantasmas. Isso é, se você não é um anjo, está em pecado.

Eu busco uma santidade possível, se é que isso existe. Não nego meus desejos, meu gosto por cerveja (se quiser entender cerveja como um eufemismo vá em frente), mas por outro lado procuro também não sacanear minha esposa pelas costas, como um rato. Os pactos firmados no casamento tem seu valor e ajudam na estabilidade da família. Mas a santidade exigida pela igreja, levada ao nível do pensamento, é simplesmente impraticável. E exigi-la dos outros é hipocrisia, pois não devemos pedir aos outros aquilo que não conseguimos nós mesmos fazer. Ou levá-los a crer que conseguimos, através da sugestão e das evasivas, e estamos portanto aptos a liderá-los.

Em terceiro lugar, senti-me livre da liturgilatria – Uau, acho que me superei!

Sejamos claros. Há na igreja evangélica brasileira um apego à liturgia que é incompatível com o espírito de informalidade do brasileiro. Queremos ser amigos de Deus, mas o tratamos por títulos, fazemos longas introduções oficiais nas orações, escolhemos frases de impacto, até mudamos nossa língua nativa para usar nomes hebraicos, que só faziam sentido para os judeus da época. Imagino que Deus tenha que sofrer toda essa parafernália litúrgica, fingir que não é com Ele para oferecer sua amizade sincera, sem limites ou restrições. Por que amigos são naturais consigo mesmos, até ao ponto de dizer: “Hoje não tou a fim de falar com você. Amanhã a gente se fala. Pô!”

A tecnologia litúrgica só encontra justificativa na necessidade que temos de impressionar uns aos outros. Usar os vernáculos mais bonitos, construir frases complexas, usar palavras estrangeiras é um atalho que usamos para que os menos instruídos nos respeitem e nos desejem como líderes. E no fundo sabemos disso. E queremos.

Em quarto lugar, senti-me livre das cadeias mentais. Os mesmos raciocínios, os mesmos gurus, o mesmo tipo de literatura. As mesmas conversas, os velhos dilemas, vistos sempre sob as mesmas óticas. Predestinação, livre arbítrio, soberania. Pecado e castigo.

O século XX viu o nascimento de grandes teólogos, gente que viu os velhos problemas com novas óticas, como a teologia da libertação. Mas são hereges, por não citar os mesmos versículos para extrair deles as mesmas conclusões que Lutero e Calvino. Agostinho e Atanásio. Pessoas concluíram a urgência de trabalhar em prol do mais pobre, do excluído, e arriscaram suas vidas em épocas de ditadura militar. Essa é uma marca de autenticidade de discípulo. Mas são “hereges” por que eram católicos, ou declaravam a soberania de Deus em moldes diferentes da reforma. A igreja assiste década após década a história desfilar sem assumir sua parcela de responsabilidade, sob o pretexto da santidade, do chamado mais sublime.

Eu acho que a igreja deve seguir o caminho do mestre em direção à morte. Para então ressuscitar. Que feche as portas dos templos. Que finque os pés nos bairros, a partir das casas, dos quintais. Que todo o trabalho seja voluntário e sem remuneração. Isso elimina o escândalo dos dízimos e das petições sem fim.

Que as casas esteja abertas para o convívio social. Isso elimina o cronograma engessado e desfocado. Elimina também o cinismo, pois a vida se transforma num livro aberto.

Que a linguagem seja a corriqueira, e todos falem. Isso elimina a liturgilatria.

Livres dos seminários, nos livramos também das velhas formas de ver os velhos problemas. A Internet está aí. Toda a produção teológica humana está a disposição como referência, para que se produza conhecimento novo e revitalizado, relevante às demandas da época e das comunidades em que vivemos.



Escrito por wassergomes às 09h55
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Desafio da diversidade à teologia contemporânea ocidental

Para a teologia protestante histórica, tradicional, o desafio me parece ser esse; dada a flertar com a ciência sem contudo transigir nos aspectos que lhe parecem mais essenciais, a esta teologia abraçar os diferentes assemelha-se a uma limpeza no armário, que começamos mais ou menos sem saber por onde, e temos que jogar fora umas meias velhas, para abrir espaço; a princípio resistentes, mas acabamos conseguindo.

A esta ala do protestantismo podemos acrescentar os pentecostais ditos históricos; com sua ênfase no poder de Deus e sua soberania, acabam por resignar o milagre desejado a um segundo plano. Afinal, Deus ainda é Deus. Jesus não curou a todos.

Já para os neopentecostais o buraco é mais embaixo. Com sua ênfase declarada na fé, que tudo pode, que remove montanhas, aceitar a deficiência, a limitação, o esteticamente inconveniente passa a ser um obstáculo intransponível.

Com o seu conceito neoliberal de plenitude, que se manifesta visivelmente na ausência de problemas financeiros e saúde para dar e vender, não há negociação possível. Conviver com alguém todo domingo cujo aspecto físico é uma afronta ao cerne de sua teologia é um aviltamento intolerável.

Mas não há de ser por falta de tentativa.

O roteiro é mais ou menos esse: se o milagre é mais imediato, basta um culto ou dois. Dores genéricas se enquadram aí. Se é coisa mais complexa, pode levar um mês ou dois até que um ou mais profetas assegurem que a cura é garantida, desde que campanhas, jejuns, orações fortes e contínuas sejam feitas. Além da tradicional dose de fé e moral redobrada.

O tempo passa, e os olhos procuram pelo milagre. Uma melhorazinha aqui, um aspecto diferente ali bastam para acionar o mecanismo da esperança.

O tempo contudo se encarregará de negar o mecanismo, e aí não quero me intrometer em áreas de conhecimento que não disponho, mas os males psicológicos de não ter sido contemplado pelo milagre, após tanto tempo de esforço e fé, ao lado de tanta gente que foi contemplada, há de produzir naquele espírito níveis de amargura contra Deus, contra o próximo e contra si mesmo. É o que me parece.

A inclusão social nestes meios se limita a capacidade do diferente de se adequar aos padrões previamente aceitos. Se esta capacidade não atinge os resultados esperados, não há inclusão possível. A fraseologia condenatória entra aí: “você não teve fé”.

É inútil e bastante desagradável continuar a desenvolver essa linha de argumentação. Minhas limitações pessoais me levam a enxergar leviandade nisso, e não gosto de generalizar. Há gente bem intencionada nesse meio.

Mas há também grandes interesses envolvidos. Não querer enxergá-los não basta para que deixem de existir, ou de produzir seus efeitos.



Escrito por wassergomes às 09h00
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